O MEDO QUE NOS PROTEGE

Débora Böttcher Lessa

Débora Böttcher Lessa

Formada em Letras, amante da literatura e de chocolate. Vive um dia de cada vez. Mora em SP. Trabalha com arte visual, mídias sociais e mkt. Casada, 'mãe' da Maya, uma labradora cor de cacau, e da Luna, uma labradora black.
Também administra o Portal Babel Cultural [www.babelcultural.com]
Débora Böttcher Lessa

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viva_la_vidaNão tenho certeza, mas parece que foi Leonardo da Vinci quem já alertava: “Assim como a coragem põe a vida em perigo, o medo protege-a.” Mas muitas frases de efeito por aí alardeiam que o medo nos impede de viver, nos afasta de aventuras e vivências, que o medo nos devora, rouba sonhos.

Vamos nos atrelar à definição da Psiquiatria: “O medo é um legado que o ser humano carrega consigo e que o protege da sua própria extinção.”

Partindo desse princípio, é pertimente afirmar que todo ser humano tem medo – e isso é bom, pois o medo é uma reação normal e, como definido, de grande valia para a humanidade – e é certo que mesmo aqueles que parecem totalmente destemidos, sentem medo.

Mas muita gente bate no peito dizendo não sentir medo de nada. Outras pessoas até assumem sentir algum medo, mas não o suficiente para protegê-las. Ambas são atitudes perigosas: mais próprias dos jovens, que utopicamente pensam que vão viver para sempre, elas geram a impressão equivocada de que não estamos tão expostos e que podemos superar qualquer coisa. Entretanto, é preciso ter consciência: ninguém tem corpo de aço.

Certa ocasião, um prestigiado amigo advogado que viajava muito por conta de seu trabalho, revelou que até ter filhos não tinha medo de voar, mas depois passou a sentir um certo incômodo – embora não deixasse de viajar por conta disso. Tenho uma amiga que adorava saltar de paraquedas, voar de parapente, e que também depois de ter filhos nunca mais saiu do chão.

A Psicologia explica: quanto mais coisas temos a perder, mais o medo pode aflorar. E isso também é bom.


O psiquiatra Bruno Lima Nogueira[médico psiquiatra pela Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP], escreveu um artigo na Revista Psiqué, onde aponta duas classificações para o medo:

O Medo Normal é aquele que protege, mas não nos impede de enfrentar os problemas cotidianos – mesmo em situações extremas – e aproveitar a vida, pois nos permite racionalizar sobre os acontecimentos.

O Medo Disfuncional e a Fobia são aqueles que dificultam a capacidade de racionalizar sobre a dificuldade, gerando muita ansiedade e paralisando a atitude.

ddd2Alguns medos são comuns – como o medo de bara­tas, de lugares altos, de ficar distante de quem se ama, de andar sozinho à noite e ser assaltado. O medo é um antigo conhecido do ser humano e é até mesmo culturalmente registrado, aceito e passado adiante.

Para Darwin, o medo pode ser adaptativo. Ele pode proteger quando em situa­ções de risco, fazendo o indivíduo responder com mais energia e qualidade para a sobrevivência. O medo de ba­ratas e ratos, por exemplo, culturalmente tão aceito, nos protegeu e protege de possíveis infec­ções transmitidas por esses insetos. O medo de lugares altos pode fazer que tenhamos mais precaução quan­do nos aproximamos do risco de uma queda fatal, procurando a cautela acima de tudo. O medo de andarmos sozinhos à noite sem proteção, idem.

O medo também faz parte do que enten­demos hoje como reações ao estresse. Ele se relaciona com reações apenas didaticamente divididas, segundo o Tratado de Oxford, em emocionais e orgânicas, de perfil mais ansioso.

Para esse estudo, o medo traz à tona reações orgânicas – como o aumento da atenção focal sobre o objeto ameaçador, taquicardia, sudorese, tremor, aumento da tensão muscular, boca seca; e também emocionais – como apreensão e irritabilidade. São reações típicas do indivíduo diante de ameaças, de excitação autonômica relacionada ao preparo do corpo para situações de luta e fuga.

Para a fisiologia, são reações de perfil mais adrenérgico. Contudo, essas condições podem ser mais ou menos adaptativas: podem mais ou menos levar o indivíduo a conseguir superar e escolher defesas de boa qualidade com relação ao objeto e seus objetivos de vida.

São típicas destas condições de estresse as estratégias de enfrentamento conscientes e inconscientes. Não conseguir matar uma barata, mas pedir ajuda para que alguém a afugente ou mate é uma forma interessante de lidar com o medo. Não ir a lugares muito altos quando se sente inseguro, sem precisar disso no dia a dia, como um profissional que limpa janelas pelo lado externo do prédio, pode não ser problema algum.

Isso se torna apenas um problema quando atrapalha o indivíduo, quando interfere em sua fun­cionalidade: quando se percebe uma dificuldade de enfrentar o que tem pela frente ou mesmo o expõe a outras situ­ações prejudiciais – como agressividade ou isolamento extremo, como o fato de evitar sair de casa. Essas reações compre­endem mudanças orgânicas em prol do aprendizado – diante delas estamos mais inclinados a compreender um determinado comportamento ou forma de pensar; porém, isso pode ser mais ou menos cabível para uma existência de qualidade do indivíduo.*


É certo que o mundo pode parecer bem mais perigoso atualmente e há sempre aquele medo que nos envolve através das notícias ruins na TV e redes sociais provocando sensações de insegurança. Mas isso não deve nos impedir de continuar vivendo. É um medo legítimo, só não deve ser paralisante.

Mas o que eu queria mesmo ao abordar esse assunto, é propor uma reflexão sobre como o medo normal pode nos proteger no dia a dia. Como o medo normal pode nos levar a ser menos inconsequentes – para nós e os nossos. Não me refiro aqui ao medo que paralisa, mas àquele que efetivamente pode evitar tragédias sem sentvigiliaido.

Por exemplo: quando atualmente ouço dizer que dezenas de turistas morreram na Turquia, eu me pergunto porque, com tantos lugares no mundo, essas pessoas viajaram para um local sabidamente em conflito. Quando nos chega a notícia de um acidente com um barco lotado, em condições precárias em alto mar, eu me pergunto porque essas pessoas escolheram esse passeio – aqui eu não falo de refugiados, mas de férias que terminam em fatalidades que poderiam ser evitadas se o raciocínio lógico do medo entrasse em ação. Quando você lê sobre uma criança que se afoga numa piscina, você sabe que o mecanismo do medo normal não foi acionado nem para a criança nem para seus pais ou cuidadores.

Quando o helicóptero em que estava o filho do Governador de São Paulo caiu, foi possível ver, pelas imagens depois repetidamente passadas na TV, que a máquina perdeu equilíbrio ao decolar. A pequena aeronave tinha passado por reparos, mas mesmo assim ‘patinou’ para subir. Se aquelas cinco pessoas – ou uma delas – tivessem tido medo normal – e racional – e com base nele se recusado a continuar o teste de voo, teria assinalado numa chance dessa fatalidade ter sido evitada.

Sim, há muitos reveses na vida dos quais é absolutamente impossível escapar. Mas há muitos também que o medo pode conter. A proposta que faço é para que tenhamos um pouco mais daquele medo normal que nos faz pensar sobre todas as possíveis falhas que podem levar a viagens sem volta.

Não é nunca mais velejar em alto mar, mas fazer isso num barco seguro e usando colete salva-vidas – mesmo que você saiba nadar;  não é impedir uma criança de se divertir numa piscina, mas apontar os perigos de fazer isso sozinha se ela não sabe nadar, e ensiná-la a nadar ou sempre utilizar boias; não é se privar de conhecer a Turquia, o Iraque, o Afeganistão, mas esperar por um momento mais oportuno. Não é nem mesmo deixar de ir morar na França – ou qualquer outro país momentaneamente na mira do terrorismo -, mas seguir, com rigor, as normas de segurança sugeridas, minimizando as ameaças. Considere, sem sombra de dúvida, que você não pode beber e dirigir pensando que pra você a bebida não tem o mesmo efeito comum e que com você acidentes desse tipo não acontecem. E mesmo que você tenha fé em algo ou alguém que o protege e olha por você, a máxima continua valendo: você não tem corpo de aço.

Que não tenhamos vergonha de admitir nosso medo normal por coisas que outros julgam besteira. Como diziam nossos avós, é melhor pecar pelo excesso que pela falta. Que não abdiquemos do medo que nos protege – se não por nós mesmos, tenhamos medo pelos que amamos.

É claro que sabemos que fatalidade tem esse nome porque é isso que é. Mas essa reflexão é para que tenhamos um pouco mais de atenção. Não é viver com medo de tudo, mas encontrar o meio termo que nos mantenha racionais a ponto de saber que, sim, pode acontecer conosco e com os nossos.

Corra riscos mais seguros. Respeitemos a Vida – a nossa e a alheia.

risco


Débora Böttcher Lessa

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Formada em Letras, amante da literatura e de chocolate. Vive um dia de cada vez. Mora em SP. Trabalha com arte visual, mídias sociais e mkt. Casada, 'mãe' da Maya, uma labradora cor de cacau, e da Luna, uma labradora black. Também administra o Portal Babel Cultural [www.babelcultural.com]

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