O FUNERAL

Silmara Franco

Silmara Franco

Paulistana da Móoca, onde viveu por mais de três décadas. É publicitária por formação e escritora por salvação. Mora em Campinas (SP) com a família e a gataiada. Autora de "Navegando em mares conhecidos – como usar a internet a seu favor" e livro finalista do Prêmio Jabuti 2017, "Você Precisa de Quê?". Dona do blog Fio da Meada.
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Em enterros é proibido ser feliz. Sorrisos são mal vistos. Se você foi promovido na empresa no dia anterior, deixe a alegria em casa. Se sua sobrinha nasceu na semana passada e você já teve oportunidade de pegá-la nos braços, finja que não se recorda da sensação. Se amanhã você embarca com seu namorado para vinte dias num charmoso vilarejo italiano, faça de conta que deu tudo errado e vocês não vão mais.

Cemitério não é lugar de gente alegre. Nele só são permitidos pensamentos tristes. Não cumprimente efusivamente um amigo que não vê há tempos, mesmo que você esteja sinceramente contente em vê-lo – ainda que não ali. Nesse caso, esboce um sorriso, sem muito entusiasmo, e dê-lhe um abraço mudo. Só. Para a etiqueta dos funerais, basta.

Ontem fui a um. Convém registrar, e já: claro que ninguém fica feliz com a morte de um familiar, um amigo (ou amiga, no meu caso), salvo casos previstos na psiquiatria. Nos funerais, as pessoas mais chegadas – parentes ou não – ficam, de fato e visivelmente, tristes de dar dó. Quase dá para ver (ou ouvir) seus corações chorando. A morte desarranja, abala, desconcerta, despruma, desconstrói, faz bagunça. Verdade verdadeira.

No entanto, sejamos honestos, sem medo do bofetão: parte dos presentes não tem o coração tão dilacerado assim. É preciso estabelecer uma fronteira entre os pesares. Acompanhar enterro de pai não é a mesma coisa que acompanhar enterro de cliente. De tio que nunca lhe deu um abraço. De mãe do amigo do filho, aquela que você não viu mais que duas vezes no último ano. Por que, então, lançar mão de um semblante tão forçadamente triste, se não é isso que vai na alma? Não é, claro, o caso de contar a última do papagaio ou relembrar o episódio d’Os Normais da semana passada. A menos que o falecido seja da área do humor, coisas assim nem vêm à lembrança. Naturalmente. O silêncio é uma forma universal de respeito. Mas repare: assim como se vestem de preto, algumas pessoas se vestem de tristes. Nos dois casos, o efeito é apenas superficial. Protocolar.

Serei uma pessoa fria por não ter chorado? Talvez eu tenha sido mais tocada com a perda da minha amiga do que outra pessoa que tenha exibido um copioso pranto durante seu sepultamento. O manual ainda estabelece que, quanto maior o choro, maior a dor. Assim como quanto mais e maiores coroas de flores, mais querida ou importante a pessoa era. Parâmetros sociais da vida. E da morte.

Enquanto as últimas pás de terra selavam o túmulo da minha amiga sob um alaranjado entardecer de outono como testemunha, pensei na impermanência das coisas todas. No sentimento do seu marido, também meu amigo, ao ver o frasco de xampu dela ontem à noite, na hora do banho, e o que ele fez com a saudade naquela hora. Pensei nos seus sapatos solitários no armário, órfãos de pés até que alguém dê a eles novos donos. No que ela mudaria em sua vida se fosse avisada, há um ano, que hoje não estaria mais aqui. Em quem deve tê-la recebido do lado de lá e como se ajeitarão as coisas do lado de cá, sem ela. Pensei em tudo e desejei, profundamente, seu bem. Sem, contudo, perder de vista minha alegria diária, apenas por estar viva.

Funerais me deixam assim. Esquisita.

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Paulistana da Móoca, onde viveu por mais de três décadas. É publicitária por formação e escritora por salvação. Mora em Campinas (SP) com a família e a gataiada. Autora de "Navegando em mares conhecidos – como usar a internet a seu favor" e livro finalista do Prêmio Jabuti 2017, "Você Precisa de Quê?". Dona do blog Fio da Meada.

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