O ETERNO RETORNO

Regina Pundek

Regina Pundek

Escritora, professora da Educação Infantil, Psicopedagoga, Engenheira Civil, Educadora focada no desenvolvimento do respeito. Nascida em Santa Catarina em 1958, pertencente à Granja Viana há 15 anos. Esposa, mãe e avó.
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As férias acabaram. Tudo retorna ao normal.  A velha rotina está de volta: acordar cedo ao som do despertador, arrancar os filhos da cama, tomar o café da manhã correndo e sair à caça do sustento do dia, não sem antes passar pela escola e deixar as crianças…

As férias se foram deixando um gostinho de quero mais – quando estávamos começando a descansar da correria do final do ano, lá vem a rotina gritando que é hora de parar, entrar novamente no trem da própria história, que parece andar em trilhos circulares. Todo ano é igual: o tempo é apressado e quando vemos já chegou o Natal e o Ano Novo mais uma vez.

A cada final de ano fazemos nossos propósitos de tentar qualificar a vida além das férias.  Prometemos rever prioridades, entrar numa aula de dança, voltar a praticar um hobby, resgatar velhos amigos, ir mais ao cinema e ao teatro, namorar mais e por aí afora. Dezembro é mês de avaliar o que se foi, fazer balanços e planos para o futuro próximo. É sempre assim. A gente lembra de textos bonitos que leu falando sobre a brevidade da vida, e não é sem certa melancolia que olhamos para nossos velhos, que nos percebemos velhos, que percebemos como cresceram nossos filhos.  Afinal a vida é assim.  O que podemos fazer?

O sentimento geral é de estarmos sendo espremidos contra o tempo e até parece que Nietzsche tinha razão em A GAIA CIÊNCIA sobre o eterno retorno.  Conhecem a história?  Trata-se de um demônio que se aproxima de tua alma num momento de extrema solidão e te diz:

“Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!”…

Aos curiosos fica a sugestão da leitura através da qual o autor nos mostra a eterna alternância entre polos opostos como o bem e o mal, a angústia e o prazer, que ele compreende como instâncias complementares da realidade.  Neste texto me permito abusar de sua filosofia na tentativa de entendermos a alternância entre “as férias e o retorno ao trabalho ou ao período escolar”.

Reconhecendo a impossibilidade de garantir coisa alguma além da ampulheta que é sistematicamente virada a cada final de ano sem que tenhamos direito a modificar-lhe frequência e ritmo, vamos tentando refletir no meio desta imperativa correria.

Há um sumo que emana destes dias e que ao sugarmos clareia-nos a mente e facilita a compreensão do propósito de viver. Afinal, a que viemos?

Tudo se inicia na necessidade de desfazer as malas, colocar as roupas de volta no armário, ativar o despertador e montar a agenda da família focando os objetivos do ano. Com a disciplina de uma parada e de uma respiração bem feita, geramos a possibilidade de curtir o ano todo, não somente as férias, curtir a rotina, a vida cotidiana profissional e familiar.

E esse curtir nada tem em comum com aquele do Facebook. Com aquele mostramos a alguém que vimos o que tornou público, que aprovamos o que lemos, que estamos conectados. Esse curtir do qual falo neste texto é um mergulho intenso e profundo nos momentos pequenos e singulares de nossas vidas, aqueles que fazem toda a diferença e que por isso ficarão na memória. Trata-se de um mergulho intencional nas oportunidades de rir, de sorrir, de abraçar, de tocar, gozar, cantar, dançar, brincar, contemplar, rezar, partilhar, conviver. Esse curtir é entregar-se ao ritmo pulsante dos relacionamentos presenciais.

O resto é sabedoria. É tentativa de equilibrar as necessidades diárias com a consciência da finitude. É tentativa de praticar o que se propõe, de transcender e transformar o pequeno momento no momento mais importante, e assim olhar a vida com bons olhos, apostando no instante presente, rindo de si próprio e admitindo seus deslizes e suas dificuldades, mas sempre buscando aproveitar a tocante singeleza desse mundão tão cheio de beleza.

Aos leitores, desejo dias ímpares todos os dias e, ainda assim, cientes de que a abençoada rotina ajuda a estabelecer o sentido à vida.


Regina Pundek

Regina Pundek

Escritora, professora da Educação Infantil, Psicopedagoga, Engenheira Civil, Educadora focada no desenvolvimento do respeito. Nascida em Santa Catarina em 1958, pertencente à Granja Viana há 15 anos. Esposa, mãe e avó.

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