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MORTE E VIDA

Débora Böttcher Lessa

Débora Böttcher Lessa

Formada em Letras, amante da literatura e de chocolate. Vive um dia de cada vez. Mora em SP. Trabalha com arte visual, mídias sociais e mkt. Não tem filhos. Vive com o marido e Maya, uma labradora cor de cacau, e Luna, uma labradora black. Também administra Babel Cultural.
Débora Böttcher Lessa

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“(…) a gente passa a vida enterrando os mortos. Toda uma existência para se despedir de quem se ama.” (Miguel Falabella)

Foi outro dia: sonhei que morri – e não foi um pesadelo, tamanha calma de tudo. Era só isso: a morte. As pessoas ao redor, silêncio, lágrimas, perplexidade.

Eu ali, quieta e tranquila, morta e viva ao mesmo tempo, caminhando entre os presentes sem ser vista – talvez sentida.

Lamentei alguns sofrimentos: meu marido, minha mãe, meus irmãos, os sobrinhos. Amarguei deixá-los tão tristes, impotentes, abatidos, meio anestesiados na incompreensão.

Mas me sentia tão bem! Não mais o medo nem minhas angústias. Não mais dores, nem passado, nem futuro. O presente era aquilo: um parecer adormecida sabendo que o fim era a única porta. Não havia mais volta.

Não sei se tenho medo de morrer. A gente nunca pensa sobre isso – ou se pensa, trata logo de afastar tal agouro. Penso mais – e disso tenho horror – na morte das pessoas que amo: tremo ante essa possibilidade sempre iminente, porque estamos todos sujeitos à Senhora das Sombras – sem aviso, barganha ou negociação: quando Ela marca o encontro, não tem desvio nem atraso.

Mas é curioso – pra dizer o mínimo – ser abraçada por esse cenário no meio da madrugada.

E não houve um despertar ofegante nem desesperado. Foi só um coração que parou de bater por alguns instantes, suspenso acima do mundo e suas preocupações – naquele momento em que, dizem, a gente sai de dentro de si e vai viajar por outras paisagens (nem sempre agradáveis, é verdade).

Então amanhece, há sol na janela, vento de outono no céu azul, e a vida que continua. Porque, como dizia o poeta João Cabral de Melo Neto, “Antes dos trinta anos, morre-se de velhice; antes dos vinte, de emboscada; e de fome, morre-se um pouco a cada dia”.

Assim, talvez seja tudo – a vida e a morte – uma ilusão cotidiana e desmedida…


Débora Böttcher Lessa

Débora Böttcher Lessa

Formada em Letras, amante da literatura e de chocolate. Vive um dia de cada vez. Mora em SP. Trabalha com arte visual, mídias sociais e mkt. Não tem filhos. Vive com o marido e Maya, uma labradora cor de cacau, e Luna, uma labradora black. Também administra Babel Cultural.

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