HELLO, WIN!

Silmara Franco

Silmara Franco

Paulistana da Móoca, onde viveu por mais de três décadas. É publicitária por formação e escritora por salvação. Mora em Campinas (SP) com a família e a gataiada. Autora de "Navegando em mares conhecidos – como usar a internet a seu favor" e livro finalista do Prêmio Jabuti 2017, "Você Precisa de Quê?". Dona do blog Fio da Meada.
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A rendição: chegar com o porta-malas cheio de gostosuras, enfeitar a frente da casa com teias e fantasminhas, maquiar uma bruxinha loura e paramentar um vampirinho banguelo.

A confissão: não nutrir simpatia pelo Halloween.

Ilustração: Luísa Cortesão

Não é falta de apreço pelas bruxas. São minhas velhas conhecidas, desde o berço. Já esperei (em vão) a Cuca me pegar, torci pela Branca de Neve e brinquei de fazer poção no caldeirão onde minha mãe cozinhava feijão. Aprendi a ler com a Madame Min, Maga Patalójika, Meméia e Alcéia. Cresci e, ao estudar a inquisição, passei a ver as bruxas de outra forma – mais compassiva que temerosa. Quis (e ainda quero) os poderes da Samantha. Não me desagrada a ideia de uma festa em homenagem a elas. Apenas me falta memória afetiva.

As abóboras da minha infância faziam parte de outra história, a da Cinderela. As bruxas habitavam outras paragens. Meus fantasmas, nem sempre camaradas, se enfiavam sob minha cama e só não me pegavam porque eu era mais rápida. E nenhum deles batia à minha porta em busca de guloseimas. Isso era lá com Cosme e Damião. Mesmo sem saber uma vírgula sobre a história dos santos, eu ficava feliz em ganhar doces no dia deles. Folclore é assim: a gente vive o mito porque sempre foi assim, depois é que vai descobrindo do que se trata. No Halloween, que tem suas origens mas não nasceu aqui, o caminho é outro: primeiro a gente copia e mais para frente internaliza, num folclore às avessas.

Carnaval, Festa Junina, Bumba-meu-boi e Saci-Pererê estão inscritos no meu DNA. Nem preciso explicá-los demais às crianças, elas entendem, sabem desde sempre. A gente dá o input e a memória ancestral faz o resto. Meu filho veio perguntar como se escrevia Halloween. Estava com dúvida se era com dois éles, estranhou os dois ês, quis saber porque o h tinha som de r. Folclore legítimo de um povo não carece de tanta explicação.

A vizinha, uma bruxinha de setenta centímetros de altura, tocou a campainha. Atendi. Ela disparou a traduzida “Doces ou travessuras!”. Não lhe dei nada e desafiei: “Travessura!” Achei que ela fosse aprontar, fazer traquinagem, enfim, cumprir a ameaça. Que nada. Deu uma risadinha e levantou voo em sua vassourinha, levando seu baldinho de caveira já repleto de pirulitos. Ela não estava preparada para a alternativa b.

São vários os esforços para nos enfiar a tradição goela abaixo. Inventaram até Halloween Sertanejo. É compreensível. Quase tudo que é importado precisa de certa tropicalização para emplacar. Rede de cafeteria norteamericana, aqui, tem que ter pão de queijo. A diferença: pão de queijo é uma delícia.

Se o “Trick or treat” sobreviverá, a próxima geração é quem vai dizer. Que não se duvide das bruxas, porém. Elas não estão à prova.

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Paulistana da Móoca, onde viveu por mais de três décadas. É publicitária por formação e escritora por salvação. Mora em Campinas (SP) com a família e a gataiada. Autora de "Navegando em mares conhecidos – como usar a internet a seu favor" e livro finalista do Prêmio Jabuti 2017, "Você Precisa de Quê?". Dona do blog Fio da Meada.

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