FELIZ NATAL

Silmara Franco

Silmara Franco

Paulistana da Móoca, onde viveu por mais de três décadas. É publicitária por formação e escritora por salvação. Mora em Campinas (SP) com a família e a gataiada. Autora de "Navegando em mares conhecidos – como usar a internet a seu favor" e livro finalista do Prêmio Jabuti 2017, "Você Precisa de Quê?". Dona do blog Fio da Meada.
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O mais bonito no presépio instalado na sala de casa, quando eu era criança, não era a manjedoura. Nem José, nem Maria, nem as vaquinhas fungando atrás do berço improvisado. Não era nem o Menino Jesus, para ser honesta. O mais interessante no presépio era o laguinho, feito com um pedaço de espelho.

Quando as peças eram desencaixotadas, após longo exílio no armário desde o Dia de Reis, minha maior preocupação era se o espelho estaria intacto. Temia que houvesse quebrado. Mas alguém estendia o pano verde de cetim e o cenário natalino ia sendo produzido. Reis magos surgiam ao lado de camponeses, ovelhas. A neve de isopor dava o ar da graça em meio ao morno dezembro. O lago era desembrulhado. O Natal estava garantido.

Eu brincava com a serragem em volta dele, imitando terra. Assim, dava contornos diferentes à lagoinha, todos os dias. Ora colocava o carneirinho tomando água numa margem, ora na outra. Alterava a órbita dos personagens, mudava os patos de lugar. Eu não queria saber de nascimento, eu já tinha um Natal só meu; era esse o nome da minha rua. E eu só queria saber do espelho. Tal um índio encantado diante das bugigangas que o homem português traria ao nosso continente, tantos anos depois daquela noite feliz. Tal a rainha má e perguntadeira, obcecada pela própria beleza. Tal Narciso, o moço auto-apaixonado. Mas eu não era nenhum deles; era uma menina, que via importância no desimportante.

Por isso, hoje tento prestar bastante atenção aos olhos dos meus filhos quando admiram um presépio ou falam de Natal. Que é para descobrir qual fotografia particular, do nascimento mais icônico do planeta, eles levarão consigo vida afora. Quais lembranças, quando adultos forem, lhes serão mais líquidas. Feito a água, imaginária e doce, que se entregava ao velho espelho, espelho meu.


Publicada originalmente em 20/12/2015.


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Paulistana da Móoca, onde viveu por mais de três décadas. É publicitária por formação e escritora por salvação. Mora em Campinas (SP) com a família e a gataiada. Autora de "Navegando em mares conhecidos – como usar a internet a seu favor" e livro finalista do Prêmio Jabuti 2017, "Você Precisa de Quê?". Dona do blog Fio da Meada.

Um comentário em “FELIZ NATAL

  • 20/12/2015 em 20:44
    Permalink

    Enquanto lia esse texto lindo, fui me reportando ao meu Natal de criança. Eu, como a menina Silmara, ficava trocando as ovelhinhas de lugar. Acho lindo, quando a menina/menino cresce, e mantém o olhar interno acordado para as coisas ditas desimportantes da vida. Desconfio que isso é uma base bem importante para a compreensão da vida.

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