ENQUANTO VOCÊ SE DEPILA

Silmara Franco

Silmara Franco

Paulistana da Moóca. Autora do livro "Navegando em mares conhecidos – como usar a internet a seu favor" (Editora Moderna, 2012) e dona do blog Fio da Meada [fiodameada.wordpress.com]. Mora em Campinas com a família e a gataiada.
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Enquanto você se depila o planeta segue rumo, a prumo, em acontecimentos diversos, simultâneos, coincidentes, aleatórios. A órbita planetária é precisa e afiada – como a lâmina gentil que escanhoa sua pele sob a água do chuveiro.

Toda sorte de movimento se dá no decorrer desse breve período. É a lâmina universal a fatiar eventos, carregados de significados sabidos e não-sabidos. Nascimento, aniversário, desjejum, aula, reunião, amor, desamor, morte – morrida e matada – caminhada, sono, pensamento, risada, choro.

Tudo enquanto você, solitariamente, se depila.

Se a primeira faz tchan e a segunda faz tchun, minhas axilas desafinaram na Quinta de Beethoven; já é sexta-feira.

É no banho matinal que executo a poda dessa região. Água lava e leva tudo: o pelo e o meu apelo por um dia bom. O pensamento escapa do sossego azulejado e viaja; quero estar um lugar onde eu possa, de fato, sentir a transpiração do universo. Onde fica o sovaco do mundo?

Não dou paz aos pelos que ali brotam: dia sim, dia não, empunho a guilhotina portátil e não deixo nem um para contar história. Recém-nascidos, eu os toso, sem piedade. Eles não perdem a esperança; continuam crescendo e se multiplicando. Pelos têm rara obstinação.

Uso, somente nelas, um barbeador de plástico, em versão com frufrus ergonômicos, próprios para minhas mãos pequenas e meus olhos femininos. Não há barba, porém. Mas estou eternamente vinculada ao objeto masculino, que sequer trocou de nome para me servir.

Sonhava, com onze anos, em depilar as pernas. Os pelos adolescentes não combinavam com a pré-moça que me habitava. Autorizada pela minha mãe, dei cabo deles. Faço isso há trinta e cinco anos. Nunca me perguntei o porquê.

Depilação é eterna refação. É, também, atestar e validar a vida; em morto não nasce pelo. É preciso agradecer, portanto, o pelo nosso de cada dia.

Enquanto me depilo, a fé é cega. A faca, amolada. O barbeador, cor-de-rosa.

Estou pronta. Venha, dia.

Silmara Franco

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Paulistana da Moóca. Autora do livro "Navegando em mares conhecidos – como usar a internet a seu favor" (Editora Moderna, 2012) e dona do blog Fio da Meada [fiodameada.wordpress.com]. Mora em Campinas com a família e a gataiada.

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