ENFRENTANDO A FINITUDE

Débora Böttcher Lessa

Débora Böttcher Lessa

Formada em Letras, amante da literatura e de chocolate. Vive um dia de cada vez. Mora em SP. Trabalha com arte visual, mídias sociais e mkt. Casada, 'mãe' da Maya, uma labradora cor de cacau, e da Luna, uma labradora black.
Também administra o Portal Babel Cultural [www.babelcultural.com]
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“(…) a gente passa a vida enterrando os mortos. Toda uma existência para se despedir de quem se ama.”
[Miguel Falabella]


capa_luto_03Culturalmente, temos muita dificuldade em enfrentar a finitude da vida. O projeto Vamos Falar Sobre o Luto? é uma plataforma digital de informação, inspiração e conforto para quem perdeu alguém que ama ou deseja ajudar a outros nessa etapa tão difícil. A proposta é uma tentativa de romper com o tabu e tornar a experiência menos triste e solitária.

Realizado de forma voluntária – por pessoas que viveram o luto -, não envolve atendimento presencial ou digital. O que eles oferecem, segundo o próprio site, é conteúdo, ferramentas, caminhos, depoimentos, um pouco de luz e outro tanto de amor. Um jeito de viver o luto e reinventar a vida.

No mundo contemporâneo, as pessoas primam por mostrar felicidade a qualquer custo. As redes sociais ‘exigem’ esse comportamento ‘de bem com a vida’, e falar em tristeza é quase proibido. Nessa batida, muita gente aparenta não se assombrar com a morte e, como anestesiada, acha que é apenas uma consequência natural da existência.

E efetivamente é. Mas isso não nos impede de sofrer, partilhar dor, demonstrar nossa amargura pela perda. Ninguém deveria ter vergonha de exteriorizar essa ‘fragilidade’, de ficar triste diante dos amigos, conhecidos e familiares ao confrontar a morte.

about-intro-bgO momento de embate com a morte alheia, nos leva, quase sempre de forma inconsciente, a perceber nossa própria finitude. A morte, de modo geral, ‘quebra’ o louco ritmo do ‘ser feliz a qualquer custo’ e impõe uma pausa forçada no absurdo de aparentar felicidade todo o tempo: nos faz encarar a angústia da separação definitiva. Além disso, nos leva a reflexões densas, ao inevitável enfrentamento de constatar nossa fragilidade e perceber que todos os valores que temos – externos ou internos – não servem nessa hora, não nos impedem de morrer nem de morrer quem amamos.

Há um silêncio ensurdecedor na morte. Melancolia, pesar, ausências que nada preenche. Na morte de alguém querido – que sempre parece repentina, não importa se previsível em alguns casos -, nos deparamos com a impossibilidade de ‘dizer apenas mais uma palavra’,dar mais um abraço’, ‘compartilhar mais uma coisa’.

Mas falar de luto significa falar também sobre a vida – que fica, permanece, continua, sobrevive à morte. O passado da pessoa que morre está ‘preso’ à vida: suas contas bancárias, seus perfis nas redes sociais, seus agendamentos de consultas, seus trabalhos inacabados, seus planos, projetos, tudo aquilo que envolve o cotidiano – inclusive coisas que nem sempre até os mais próximos sabem -, continuam girando independente da pessoa ter morrido. Na prática, não importa quanta dor se esteja sentindo, é preciso executar o processo de encerrar a existência civil de quem já não caminha mais pela vida.quemamamos_

Eu me lembro, por exemplo, de quando meu pai morreu – num sábado -, de uma pessoa ligando pra ele na segunda-feira a fim de confirmar uma reunião de trabalho para aquela tarde. O ‘choque’ silencioso do outro lado da linha quando eu informei sobre sua morte, foi um novo impacto pra mim: quando você confirma a morte de alguém querido, a angústia alheia te dá a sensação de que a pessoa morre de novo – e de novo, de novo: inúmeras vezes esse baque te toma – e continua enquanto se vai ‘solucionando’ as pendências de quem partiu. Tomar providências administrativas nos evidencia que cada morte representa o fim de um mundo – do mundo que quem partiu dividia conosco.

O luto nos dá um aval contra essa necessidade de ser feliz e é preciso vivenciá-lo plenamente. E isso significa conversar sobre a pessoa que morreu, contar histórias, dizer como se sente, lembrar. E saber que não há um ‘tempo certo de luto’ – cada pessoa enfrenta esse período de uma forma e cada um tem seu tempo. É preciso saber também que esse tempo não se encaixa nas normas da vida: em um mundo que pretende definir o ‘certo’ de tudo – a roupa, o carro, a decoração, a viagem, o lugar, a hora -, não é possível dimensionar um ‘tempo certo’ para o luto.

E como já disse Freud, “não se deve considerar o luto em estado patológico, nem encaminhá-lo para tratamento médico, embora ele possa acarretar graves desvios da conduta normal da vida. Confiamos que será superado depois de algum tempo e consideramos inadequado e até mesmo prejudicial perturbá-lo”. Ou seja, não há tempo pré-determinado para a superação de uma perda – o tempo do luto é outro, individual, único e intransferível.

Entretanto, segundo especialistas, se esse tempo se prolongar demasiadamente, vale a pena procurar ajuda profissional para conversar sobre essa tristeza permanente, que pode virar uma depressão crônica.

escrever_lutoNo site Vamos Falar Sobre o Luto? há vários relatos sobre dor e jeitos diferentes partilhados para continuar a vida depois da perda. Os coordenadores do projeto também encorajam a escrever sobre esse momento e publicam trechos das experiências vivenciadas com o intuito de ajudar a outros a enxergar saídas e desenvolver os próprios mecanismos de minimizar a amargura para seguir em frente.

Conheça e divulgue.


Todas as imagens são do site Vamos Falar sobre o Luto?


Débora Böttcher Lessa

Débora Böttcher Lessa

Formada em Letras, amante da literatura e de chocolate. Vive um dia de cada vez. Mora em SP. Trabalha com arte visual, mídias sociais e mkt. Casada, 'mãe' da Maya, uma labradora cor de cacau, e da Luna, uma labradora black. Também administra o Portal Babel Cultural [www.babelcultural.com]

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