DAS LEMBRAÇÕES ESSENCIAIS

Silmara Franco

Silmara Franco

Paulistana da Moóca. Autora do livro "Navegando em mares conhecidos – como usar a internet a seu favor" (Editora Moderna, 2012) e dona do blog Fio da Meada [fiodameada.wordpress.com]. Mora em Campinas com a família e a gataiada.
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Ilustração: João Grando
Ilustração: João Grando

Fecho os olhos por cinco segundos: tenho um metro e dez de altura. Visto uma camiseta tamanho 6, estou doida por um picolé e não sei quanto custa a boneca falante que acabo de pedir para minha mãe. Isso mesmo: eu sou criança.

Continuo. Ainda tenho um e dez, mas agora posso existir como se tivesse um e sessenta. Sinto como a primeira, penso como a segunda. E lembro, lembro, lembro.

Este é o exercício das lembrações essenciais, capaz de transportar adultos à infância distante, porém, com os cinco sentidos e a sabedoria (qualquer que tenha acumulado) de hoje. Para que serve? Aprender a se colocar no lugar do outro. Precisamente, no lugar de um filho ou filha que tenha um metro e dez e use camiseta tamanho 6. Um pouco mais, um tanto menos, não faz diferença. O importante é a parte de lembrar.

Suas memórias hão de se agitar e explodir igual pipoca no microondas. Ficarão cristalinas como a água da piscina onde você nadava com seu pai (e os dois pareciam muito maiores do que realmente eram, lembra?). Serão tão vivas quanto as cores da melhor fotografia que você já tirou até hoje.

E então se dará conta que, na idade que seu filho tem agora, você também tinha vergonhas bobas – de perguntar para o moço da videolocadora se tinha A Bela Adormecida – e medos paralisantes, como quando acabava a energia em casa e você não tinha certeza se sua mãe estava por perto, até que ela clareasse o breu da sua angústia, tocando sua mão e dizendo “Estou aqui, vamos buscar uma vela na cozinha?”. Se lembrará da fúria no olhar da sua avó ao ver os antúrios dela, tão caprichadamente plantados em frente à casa, agora colhidos e enfiados no vaso (ideia sua para enfeitar a mesa), quando encarar seu pequeno confessando ter sido o autor dos desenhos à canetinha nas almofadas, porque ele achou que assim elas ficariam mais bonitas.

Vamos lá, você ainda está com um metro e dez de altura. Vai se lembrar, de repente, que também tinha dificuldade para cortar a pizza sozinha, e não entendia o olhar intolerante dos mais velhos face àquele desafio pessoal.

Lembrará do seu pânico, solitário e silencioso, no primeiro dia de aula do primeiro ano, quando você não sabia se professores eram pessoas legais ou não, e se você ia poder comprar lanche na cantina, como faziam os alunos mais velhos (os ‘homens’ e ‘mulheres’ de nove anos).

Lembrará como os braços dos seus pais eram longos e alcançavam qualquer coisa no armário, e você se perguntava quando os seus também seriam assim.

Se conseguir realizar esse exercício, talvez você saiba que tudo o que pode fazer hoje – dormir e tomar banho na hora que quiser, por exemplo – representa o máximo da liberdade para seu filho.

Talvez saiba que o medo dele perder você é do mesmo tamanho que o seu de perdê-lo, embora ele ainda não saiba disso, e apesar de cada um ter o seu motivo para.

Talvez descubra por que ele não entende como brócolis pode ser mais importante que biscoito recheado ou, para ficar nos exemplos mais simples, que o significado da expressão “fazer sala” não é literal.

Confesso: eu havia me esquecido completamente do exercício. Ontem o retomei. Passei o dia inteiro com um metro e dez de altura. E ainda não voltei ao meu tamanho normal.

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Paulistana da Moóca. Autora do livro "Navegando em mares conhecidos – como usar a internet a seu favor" (Editora Moderna, 2012) e dona do blog Fio da Meada [fiodameada.wordpress.com]. Mora em Campinas com a família e a gataiada.

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