CASAMENTO

Silmara Franco

Silmara Franco

Paulistana da Moóca. Autora do livro "Navegando em mares conhecidos – como usar a internet a seu favor" (Editora Moderna, 2012) e dona do blog Fio da Meada [fiodameada.wordpress.com]. Mora em Campinas com a família e a gataiada.
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Marido deixa microrrecados românticos ao lado do chuveiro, de vez em quando. Ele toma banho antes de mim. Compõe suas pequenas missivas usando aquelas letrinhas coloridas de EVA que grudam nos azulejos, deixadas ali pelas crianças em dia de ducha coletiva. Ele envia, eu recebo depois. O banheiro é a nossa caixa postal.

São recados curtos, de carinho imediato, mais breves que um tweet. Já não há tantas letrinhas disponíveis – o alfabeto de brinquedo, de tão antigo, foi se perdendo com o tempo. Quando eu os leio, ele já está longe, enfiado em reuniões e outras chatices corporativas. Gosto de imaginar que ele me imagina sorrindo nessa hora. Outro dia, um minimalista ‘super woman’ me aguardava no box ainda embaçado pelo vapor de seu banho, anunciando o bom dia. Percebi que o W era, na verdade, um M de ponta-cabeça. Aquele foi fácil de responder: tirei duas letras, W e O. Ficamos quites.

Em outra ocasião, faltava um U à minha microfrase. Virei-me como pude, deixando coladinhos um L e um I. Criatividade e improviso, mais que tudo, deveriam constar como obrigações na certidão de casamento.

Imagem: Silvia Falgueto
Imagem: Silvia Falgueto

Nem sempre, porém, dá para ser lacônica. Eu, que estou mais para palavrosa, se pudesse, ocuparia o banheiro inteiro com meus bilhetes. Escreveria cartas com frente, verso e avesso. Que continuariam nas paredes do quarto, alcançariam o corredor, escorreriam pelas escadas e ganhariam o quintal. A super woman aqui é aprendiz na arte da concisão. E inveja no super man tal poder.

Há também os recadinhos escritos com lápis de olho no espelho, sobre a pia. Devidamente codificados, para que fiquem entre nós. Às vezes, apenas um ‘boa viagem’, ou uma força para aquele dia que, sabe-se, vai ser longo. Às vezes, em inglês, para ninguém em casa decifrar. A empregada não pode ser bilíngue.

Nenhum dos dois, no entanto, manda recado ao outro pelas letrinhas nos dias em que a casa cai. Nem mandando lamber sabão, tampouco pedindo desculpas. Não se lava roupa suja no chuveiro. Nossa caixa postal é protegida contra insultos, tem Blindex. Ali, só o lado A do casamento. Ali, só correio elegante.


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Paulistana da Moóca. Autora do livro "Navegando em mares conhecidos – como usar a internet a seu favor" (Editora Moderna, 2012) e dona do blog Fio da Meada [fiodameada.wordpress.com]. Mora em Campinas com a família e a gataiada.

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