AS HORAS DE TODAS NÓS

Débora Böttcher Lessa

Débora Böttcher Lessa

Formada em Letras, amante da literatura e de chocolate. Vive um dia de cada vez. Mora em SP. Trabalha com arte visual, mídias sociais e mkt. Não tem filhos. Vive com o marido e Maya, uma labradora cor de cacau, e Luna, uma labradora black. Também administra Babel Cultural.
Débora Böttcher Lessa

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O domingo amanheceu com a notícia triste de que a ativista Sabrina Bittencourt, 38 anos, havia se suicidado. A Revista Época, entretanto, afirma que “até o momento, porém, nenhum corpo foi encontrado e ainda não há confirmação oficial da morte, apenas através da organização” – referência à ONG “Vítimas Unidas”, da qual ela fazia parte junto à fundadora, Vana Lopes, uma das vítimas do médico Roger Abdelmassih. Ela também era parte da ONG “Somos Muitas”.

Também não se sabe se ela estava no Líbano ou em Barcelona, como divulgado ontem – e essa é só uma das muitas controvérsias sobre sua morte, ainda mais agora, depois que o filho mais velho falou à Época, dando declarações ainda mais evasivas.

Abaixo o último vídeo de Sabrina, em 03 de Janeiro.


Mas esse episódio me fez lembrar de um dos meus livros prediletos: “As Horas”. E mais precisamente desse trecho:

“Talvez pudesse ser profundamente reconfortante; talvez haja uma libertação: simplesmente partir. Dizer a todos eles: ‘Não consegui administrar, vocês não fazem ideia; eu não queria mais tentar.’ (…)
Ela poderia ir, por assim dizer, para essa outra paisagem; podia deixá-los todos para trás nesse mundo sofrido, dizendo um para o outro e para quem perguntasse: ‘Nós achávamos que ia tudo bem com ela, achávamos que suas mágoas eram mágoas comuns. Não tínhamos a menor ideia.'”
 

(Mrs. Brown, As Horas, Michael Cunningham)

De vez em quando, eu ouço a trilha sonora do filme e uma melancolia se espalha ao redor. Será possível que todas as mulheres do mundo tragam na alma uma tristeza insuportável?

Laura Brown tem uma casa bonita, um marido amável, um filho lindo. Está grávida. Entretanto, foge de um bolo – porque não consegue fazê-lo perfeito. Isso a atordoa. Pode parecer pouco, mas quantas de nós convive bem com as limitações simples, que podem até passar despercebidas para a maioria das outras pessoas, mas que nos é tão imprescindível quanto respirar? A prova de um fracasso, latente, denunciando: ser incapaz para algo corriqueiro por vezes é inaceitável…

Clarissa Vaughn também tem seus ressentimentos. O maior deles é que os coquetéis para AIDS tenham chegado muito tarde para Richard, seu maior amor, e sua mente esteja debilitada e frágil. Sua impotência diante da doença e da morte iminente causa-lhe infinita angústia. Ela compra flores e quer dar uma festa. A vida lhe parece sempre por um fio – e está…

Virginia Woolf ouve vozes, sente terríveis dores de cabeça e convive mal com a tarefa de administrar empregados. Quando os sintomas não estão presentes, ela teme seu reaparecimento: nunca está completamente relaxada. Vive apavorada com a possibilidade de amanhecer embriagada por sua loucura…

Mas como será, afinal, enlouquecer?

Será que, a cada dia, não perdemos um pouco de nossa sanidade em meio ao cotidiano, as pressões, essa ânsia de nunca errar, deixar tudo sempre em ordem, no lugar? O que dizer do peso de mulheres que empunham uma bandeira sempre hasteada por justiça, que levantam sua voz contra todo tipo de violência, que abraçam causas que contrariam interesses nesse mundo onde o machismo impera?

Por vezes penso que se muitas de nós não salta do precipício onde vez ou outra se coloca à margem, é por pura crença na brevidade de tudo e na faculdade que as mesmas coisas têm de ser importantes num momento e totalmente tolas no outro. Se não nos entregamos de uma vez ao ‘partir para sempre’ é apenas porque a maioria de nós já descobrimos a efemeridade de tudo – além disso, há o horror de causar constrangimentos aos que se ama (muitas sofrem disso).

Mas a verdade é que viver dói e é muito cansativo – mesmo para quem é feliz. Viver exige esforços constantes, atenções redobradas, infinitos movimentos, ideias, lutas diárias, milhares de afazeres.

São flores, bolos, jantares, dores de cabeça.

São medos, festas, almoços, amigos.

São lutas constantes em favor de si e de outras mulheres.

São risos, amarguras, incompreensões, lágrimas.

São lágrimas – muitas lágrimas…

E amor… Sim: deve ser por amor que vivemos – e também por ele que algumas de nós se deixa morrer…


Débora Böttcher Lessa

Débora Böttcher Lessa

Formada em Letras, amante da literatura e de chocolate. Vive um dia de cada vez. Mora em SP. Trabalha com arte visual, mídias sociais e mkt. Não tem filhos. Vive com o marido e Maya, uma labradora cor de cacau, e Luna, uma labradora black. Também administra Babel Cultural.

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