AMOR DE MÃE

Débora Böttcher Lessa

Débora Böttcher Lessa

Formada em Letras, amante da literatura e de chocolate. Vive um dia de cada vez. Mora em SP. Trabalha com arte visual, mídias sociais e mkt. Não tem filhos. Vive com o marido e Maya, uma labradora cor de cacau, e Luna, uma labradora black. Também administra Babel Cultural.
Débora Böttcher Lessa

Últimos posts por Débora Böttcher Lessa (exibir todos)

Imagem: Rede Globo

A novela “Amor de Mãe” tem revelado a maternidade como um modo de vida onde vale tudo para proteger os filhos.

Mas será que isso é legítimo?

Não sou mãe, portanto, minhas considerações são absolutamente racionais. E dentro delas, questiono as atitudes da personagem de Regina Casé – que vão desde acobertar crimes até por pra fora de casa um filho que trava embates sobre sua conduta.

Aliás, como é isso de ‘escolher’ um filho em detrimento de outro? Nesse contexto, poderíamos considerar ‘filhos preferidos’ x ‘filhos preteridos’?

O que dizer de Thelma, a personagem de Adriana Esteves? Que filho consegue dar conta de um amor sufocante, que cerceia seus passos e parece querer ditar seu destino, enquanto esconde segredos extremos?

E como definir Vitória, a personagem de Taís Araújo, que entregou um filho para adoção aos 17 anos, e depois padeceu para adotar e gerar outros filhos? Há redenção possível para o abandono de uma criança?

Vera Holtz, na personagem de Katia Brandão, também teve seu quinhão de amor radical: de frente pra morte iminente, ela só pensou em salvar seu filho do crime. Depois da tentativa frustrada do encontro com Vitória (cena que ninguém entendeu inicialmente (dela tentando invadir o prédio onde Vitória trabalha), usou o desespero de Lurdes (Regina Casé): sabendo que ela faria qualquer coisa para proteger Sandro, pregou-lhe uma mentira que promete ser das mais impactantes quando desvendada.

Há outras mães correndo pelas beiradas – como Natália (Clarissa Kiste), que tenta fazer alienação parental; Lídia (Malu Galli), a única que, até agora, parece se importar pouco com o filho (que vive no exterior, mas vai aparecer); Leila (Arieta Corrêa), que depois de oito anos em coma tem que lidar com uma filha que não viu crescer; Miranda (Debora Lamm), uma mãe e esposa dedicada, cuja história ainda não começou a ser contada.

A novela, segundo portais de entretenimento, vem enfrentando resistência do público: brincando com a “Teoria do Caos” – onde uma pequena mudança no início de qualquer evento simples pode desencadear consequências enormes e absolutamente desconhecidas no futuro de várias pessoas -, e com a de “Seis Graus de Separação” – que diz que todos nós estamos interligados por um número pequeno de conexões -, a autora, Manuela Dias, vai estreitando os núcleos, criando um círculo fechado que desafia todas as probabilidades.

Nas minisséries de sua autoria isso era menos perceptível – em capítulos que mostravam um grupo de personagens por semana, só no final a costura de envolvimentos era tecida. Numa narrativa diária, esse entrelaçamento intenso possivelmente está gerando confusão no telespectador – mais acostumado a tramas que combinam humor e surrealismo, além de mocinhas tolas e inocentes, e vilões toscos.

Pessoalmente, gosto desse enredo em que todos são fundamentais – apesar de, às vezes, achar um pouco forçado (muita interligação entre os personagens – que não são muitos, aliás).

Mas meu espanto continua sendo as ações, reações, atitudes e excessos que a maternidade proporciona. Nos contextos apresentados, é como se tornar-se mãe anulasse todos os valores e estruturas que se acumulou durante a existência. Como se a maternidade transportasse a mulher para um campo minado, onde ela não tem mais identidade própria e se movimenta num tabuleiro tipo roleta russa, em que sua trajetória passa a se pontuar pelas vidas que gerou no útero.

Ilustração: Duy Huynh

Acho a maternidade linda e entendo que é uma escolha e um processo/projeto pessoal bastante genuíno.

Desde que tomei minha decisão, nunca tive dúvidas, e confesso que se era essa a mudança interior que me esperava, sinto-me, mais do que nunca, muito feliz com meu propósito de não ter filhos: pode ser egoísta, mas pra mim, que tenho espírito livre, não tem preço pontuar meu percurso existencial apenas naquilo que me favorece…

Débora Böttcher Lessa

Débora Böttcher Lessa

Formada em Letras, amante da literatura e de chocolate. Vive um dia de cada vez. Mora em SP. Trabalha com arte visual, mídias sociais e mkt. Não tem filhos. Vive com o marido e Maya, uma labradora cor de cacau, e Luna, uma labradora black. Também administra Babel Cultural.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *