A MODA EM QUATRO ATOS

Silmara Franco

Silmara Franco

Paulistana da Móoca, onde viveu por mais de três décadas. É publicitária por formação e escritora por salvação. Mora em Campinas (SP) com a família e a gataiada. Autora de "Navegando em mares conhecidos – como usar a internet a seu favor" e livro finalista do Prêmio Jabuti 2017, "Você Precisa de Quê?". Dona do blog Fio da Meada.
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Gustavo Peres
Arte: Gustavo Peres

I

Chamo a vendedora e aponto na vitrine:
– Aquela ali, roxa.
Ela entorta a cabeça, espreme os olhos, mira o objeto do pedido:
– Ah, a berinjela.
– Não, a roxa – repito.
Tal a mulher-elástica, ela alcança com a mão a peça por trás do vidro:
– Esta aqui?
– Isso! A roxa.
– Ah – diz, voltando ao seu tamanho normal – A gente chama de berinjela.


II

– Bonita, sua écharpe. Nude vai com tudo, não?
– É. Bege é muito fácil de combinar.
– Nude, querida. Nu-de.
– Bege.
– Nude.
– Bege.


III

Leio na revista: “A noiva usava uma headband sessentinha”. Penso, logo, falo: “Isso é uma tiara”. A manicure passa o palitinho na acetona e, enquanto capricha na limpeza dos restos de esmalte, ensina: “Ninguém mais fala assim. É headband”.


IV

Experimente este – sugere a vendedora (outra), trazendo um escarpim. É um off-white tranquilo, não aquele brancão.

Cogito pedir a ela que repita, preciso checar se entendi direito. Então o branco não só fora rebatizado, como ganhara sentimentos. Oh, oh.

Berinjela não é exatamente roxa e nude não é propriamente bege. Há, de fato, uma sutil diferença (identificada com a ajuda do cromossomo X). A casca do legume, por exemplo, é mais que roxo; esbarra no marrom-café, flerta com o vinho. Nude (nu em inglês), dizem, puxa para a cor de pele. Pele de quem, minha ou sua? É “núdi” ou “núde”que se fala? Fato: é um bege clarinho com uma pitada de rosa. O off-white nasceu branco, mas ganhou pinceladas de algum tom que ninguém sabe dizer qual é. A tiara? Bem… melhor deixá-la em paz. Tirando o vegetal – repare –, todos os termos são importados.

Ouvi, certa vez, uma vendedora (eu adoro vendedoras) classificar um casaqueto na cor “maçã verde”. Não podia ser só verde, tinha que ser associada a alguma coisa de comer, igual verde limão. Aliás, com ou sem hífen?

O século XXI trouxe – pleonasmo proposital – novidades verdadeiramente novas. O mercado de trabalho que o diga: há quinze anos não tinha isso de ser designer de games ou analista de redes sociais. Simplesmente porque essas ocupações não existiam. O processo vivido pelas cores não é bem assim. É neologismo fashion. Modas da moda. Sujeitas, portanto, às mudanças dos ventos.

A rainha, assim como o rei, está nude.

Silmara Franco

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Paulistana da Móoca, onde viveu por mais de três décadas. É publicitária por formação e escritora por salvação. Mora em Campinas (SP) com a família e a gataiada. Autora de "Navegando em mares conhecidos – como usar a internet a seu favor" e livro finalista do Prêmio Jabuti 2017, "Você Precisa de Quê?". Dona do blog Fio da Meada.

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