A DITADURA DO FITNESS

Silmara Franco

Silmara Franco

Paulistana da Móoca, onde viveu por mais de três décadas. É publicitária por formação e escritora por salvação. Mora em Campinas (SP) com a família e a gataiada. Autora de "Navegando em mares conhecidos – como usar a internet a seu favor" e livro finalista do Prêmio Jabuti 2017, "Você Precisa de Quê?". Dona do blog Fio da Meada.
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Depois das bruxas e dos fumantes, a humanidade deu agora de caçar, impiedosamente, outra categoria: os que não gostam de se exercitar.

A mensagem é onipresente, do anúncio de remédio para o fígado à embalagem de Sucrilhos: “Tenha uma vida saudável, pratique exercícios físicos”. Sepultada a ditadura militar, é a vez da ditadura do fitness. Tão cruel quanto, nela os seres são separados entre ativos e sedentários, sadios e não-sadios, terráqueos e extraterrestres.

Não se trata de mensagem motivacional, nem de saúde; é comunicação estratégica: os fabricantes querem tirar os seus da reta quando, lá na frente, você infartar de tanto comer porcaria. Terão dito: “Eu avisei”.

Abasteço minha tigela de cereal enquanto leio o rótulo. Instantaneamente, se forma à minha frente a paisagem da última academia de ginástica que frequentei, durante um período bem menor que o contratado. De lá, saí correndo. Fugi. Escafedi-me. (O sonho de toda academia é ser uma sucursal de Salvador, inventando micaretas diárias para levantar o astral da moçada. No meu caso, tempo perdido: micaretas só despertam em mim as últimas três sílabas.)

A professora ligou, um mês depois, para saber o que havia acontecido. Quis inventar uma história triste e trágica, mas como todo pensamento carrega em si o poder de se realizar, confessei: “Sabe que que é? Não gosto de ginástica”. Tentei reaver os meses pagos e não utilizados, e ela: “Você fica com um crédito, quando você se animar, volta”. Ela não entendeu. Adiós, muchacha!

Agora sei como se sente uma bruxa, um fumante. Bruxas, ao menos, não precisam se expor nos formulários dos consultórios médicos.

De tempos em tempos, quando resolvo me exercitar três vezes por semana porque dizem que, assim, chegarei supimpa aos cem anos, fazendo Tai-Chi-Chuan na praia e tudo, o meu diabinho da consciência, um gordinho flácido e feliz, se empoleira no meu ombro. E tenta me convencer que todas as outras atividades previstas na agenda do dia – fazer supermercado, levar o gato ao veterinário, pregar botões caídos da camisa, fazer depilação, arrumar o armário de tupperwares, terminar o texto para o editor, meditar pela paz mundial – são mais urgentes e importantes que dar uma volta na Lagoa do Taquaral.

Ele, o diabinho, lembra também que na padaria tem açaí com banana, guaraná e granola, que é quase a melhor coisa do mundo, servido numa tigela deeeste tamanho. Quem pode com uma consciência assim tão persuasiva?

Não sou esportista, detesto tênis, mal sei andar de bicicleta. Mas amarro meus sapatos com facilidade, passo em pequeninos vãos entre os carros nos estacionamentos e caibo no tamanho 16 da maioria das roupas infanto-juvenis. Portanto, rogo, em prece, ao pai nosso que estais no céu: deixai-me em paz com meu ócio e minha preguiça, contanto que meu HDL, o bom colesterol, esteja alto. Deixai-me cair na tentação da gula e ajudai-me a manter meu IMC em torno de 22,5. Mas livrai-me da esteira e dos aparelhos de musculação. Amém.

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Paulistana da Móoca, onde viveu por mais de três décadas. É publicitária por formação e escritora por salvação. Mora em Campinas (SP) com a família e a gataiada. Autora de "Navegando em mares conhecidos – como usar a internet a seu favor" e livro finalista do Prêmio Jabuti 2017, "Você Precisa de Quê?". Dona do blog Fio da Meada.

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