A CONSULTORA

Silmara Franco

Silmara Franco

Paulistana da Móoca, onde viveu por mais de três décadas. É publicitária por formação e escritora por salvação. Mora em Campinas (SP) com a família e a gataiada. Autora de "Navegando em mares conhecidos – como usar a internet a seu favor" e livro finalista do Prêmio Jabuti 2017, "Você Precisa de Quê?". Dona do blog Fio da Meada.
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capa_consultoraFui atacada por uma consultora de beleza e quero fazer um B.O.

Eu, que só queria olhar os batons expostos na mesinha, enquanto aguardava minha vez com a manicure, fui abordada por uma, que fazia demonstração no salão. Eu, que só fui educada como mamãe ensinou.

Quando dei por mim, estava com o cartãozinho dela nas mãos e sendo coagida a dizer qual dia era melhor para ela ir à minha casa fazer uma apresentação sem compromisso. A esta altura, meu punho já estava tomado de amostras de base líquida com FPS 30, em diversas tonalidades, até que ela encontrou o tom “peeerfeito” para mim.

Aliás, não foi uma abordagem; foi um estupro. Um estupro comedogênico, obstruidor do meu direito inalienável de flanar pelo salão, ler revistinhas, tomar café. Um crime que não entra nas estatísticas da violência, mas também deveria ser considerado hediondo e inafiançável.

Contra minha vontade, ela mostrou defeitos em minha pele que eu nem sabia que tinha. “Está vendo esta manchinha aqui?”. Olhei-me no espelho. “Some tudo com o nosso corretivo. Você não vai querer saber de outra coisa!”. Espantou-se com minha rotina de maquiagem para os dias úteis, composta de apenas dois itens – lápis, batom – e por eu não saber o que é primer facial. Quase convenceu-me de que eu não poderia mais viver sem uma máscara para cílios ultra-alongadora à prova d’água.

Consultoras de beleza são um perigo. A polícia deveria distribuir folhetos com dicas para se proteger delas.

O que elas chamam de consuMake-Up-Vectorltoria, eu chamo de inquisição com foco em vendas diretas: querem saber o seu tipo de pele, examinam suas linhas de expressão, questionam o que você come. Mostram o catálogo inteirinho sem que você peça, pedem seu telefone celular, residencial e email para um cadastro, sondam em que horário você está em casa.

Para meu azar, a manicure estava atrasada.

Orei por um celular tocando (meu ou dela); torci por um princípio de incêndio no local, uma batida de carros em frente ao salão. Ninguém, nem nada, veio em meu auxílio. Acabei, enfim, conhecendo também o quarteto de sombras minerais de fórmula exclusiva por apenas quarenta e nove reais e noventa centavos.

Foi quando tirei o casaco – um calor lá dentro – e ela informou que tem uma amiga que revende lingeries. “Qual número você usa?”.

É crime organizado.


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Paulistana da Móoca, onde viveu por mais de três décadas. É publicitária por formação e escritora por salvação. Mora em Campinas (SP) com a família e a gataiada. Autora de "Navegando em mares conhecidos – como usar a internet a seu favor" e livro finalista do Prêmio Jabuti 2017, "Você Precisa de Quê?". Dona do blog Fio da Meada.

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