95 ANOS DE CLARICE

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∗ 10 de Dezembro de 1920 |  † 09 de Dezembro de 1977

Clarice_FotoSe fosse viva, Clarice Lispector completaria hoje 95 anos. Mas, mais uma vítima do câncer de ovário, um dia antes de completar 57 anos partiu do transitório universo dos humanos para perpetuar sua existência através do legado singular de uma literatura que transbordava de  sua complexa alma feminina, sensível e pulsante.

Clarice é uma das escritoras mais aclamadas da literatura modernista brasileira. De origem ucraniana, veio para o Brasil quando ainda era uma criança de colo, e se interessou pela literatura logo que aprendeu a ler e escrever. Com sua escrita intimista, surpreendeu ao colocar o inconsciente nos seus escritos.

Muito conhecida no meio intelectual, conviveu com grandes personalidades – como Samuel Wainer, Rubem Braga e Fernando Sabino. De temperamento discreto, assinou colunas em jornais com  pseudônimos – Helen Palmer (Correio da Manhã) e Tereza Quadros (no tabloide Comício, de Maio a Outubro de 52). Também era ela quem escrevia, como ghost writer, a coluna Só Para Mulheres, da atriz Ilka Soares, no jornal Diário da Noite, a partir de Abril de 60.

Mas Helen Palmer viria a ser sua face oculta mais famosa – e isso só foi descoberto tempos depois de sua morte e após inúmeras polêmicas referentes à sua vida pessoal. De correspondências trocadas com amigos e parentes a rabiscos de produções literárias e algumas declarações escritas sobre fatos e acontecimentos da época, concluiu-se que entre Agosto de 59 e Fevereiro de 61, era ela quem assinava a coluna no jornal Correio da Manhã,  anonimamente discorrendo sobre o universo feminino de forma mais direta.

Em Outubro de 2013, uma microssérie apresentada pelo Fantástico foi criada com base nos contos escritos na época. Correio Feminino, mesmo nome da coluna no jornal, fez adaptação dos escritos de Clarice, na voz de Maria Fernanda Cândido,  instigando a uma reflexão sobre ser mulher e desfilando um apanhado de conselhos simples e quase óbvios sobre tudo que nos cerca.


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Alguns livros de Clarice Lispector

clarice_02“Felicidade Clandestina”, “Laços de Família” e “A Hora da Estrela” são alguns dos livros que marcaram sua carreira e até hoje são aclamados, lidos e relidos.

Clarice pode ser classificada como modernista – sua obra faz parte, mais especificamente, da 3ª fase do modernismo ou geração de 45.

Seu estilo foi marcado pela inovação: os textos colocam em foco o inconsciente. Em sua literatura, os sentimentos e sensações dos personagens são extremamente importantes e sua obra apresenta características intimistas e individuais, com seus questionamentos e sua intimidade.

A representação do pensamento não é feita de forma linear – sua expressão é livre e desordenada. É possível ainda identificar a introspecção na técnica de desenvolvimento de texto, sendo a expressividade o contexto mais fundamental na construção de seus escritos.


Nascida na Ucrânia, sob o nome de Haya Pinkhasovna Lispector, foi naturalizada brasileira quando veio para o Brasil com os pais, com apenas dois meses, e foi morar em Maceió – três anos depois, mudaram-se para Recife. Filha de Pinkouss e Mania Lispector, a escritora tem origem judaica e na época em que nasceu seus pais fugiam da perseguição ocorrida durante a Guerra Civil Russa, entre os anos de 1918 e 1921. Ao chegar aqui, o pai resolveu mudar os nomes de todos da família –  só uma irmã de Clarice, Tânia, manteve o nome. A ela foi dado o nome de Clarice. A escritora dizia se considerar brasileira.

O gosto pela escrita começou cedo, assim que aprendeu a ler. Clarice era estudiosa e tinha conhecimento em várias línguas. A morte da sua mãe, em 1930, marcou sua vida e sua literatura, que expressava o sofrimento abertamente em seus textos.

clarice_01Foi morar no Rio de Janeiro quando tinha 15 anos. Na capital, cursou a Escola de Direito na Universidade do Brasil (atualmente a Universidade Federal do Rio de Janeiro), mas não gostou do curso – a literatura era sua grande paixão.

Nessa época, insatisfeita com o trabalho de escritório, ela buscou entrar na área do jornalismo, apesar das dificuldades enfrentadas pelas mulheres. De acordo com o que diria anos mais tarde em uma entrevista, passou a andar pelas redações de revistas oferecendo seus escritos, e seu primeiro conto publicado foi na revista “Pan”, em 1940 – o conto “Triunfo”.

Depois da morte do pai, nesse mesmo ano, Clarice foi convidada, pelo chefe do Departamento de Imprensa e Propaganda, órgão de censura do Governo, para trabalhar na Agência Nacional, que distribuía notícias durante o Estado Novo da Era Vargas (a imprensa na época era estritamente censurada pelo governo de Getúlio Vargas).

Clarice conheceu o homem que viria a ser seu marido na faculdade e começou a namorar em 1942, ano de seu primeiro registro profissional, quando trabalhou como redatora do “A Noite”. No ano seguinte, publicou “Perto do coração selvagem”, seu primeiro romance, livro que lhe deu o Prêmio Graça Aranha.

Casou-se com Maury Gurgel Valente em 1943. O marido começou a carreira diplomática, o que obrigou a escritora a morar em diferentes países – como Estados Unidos, Itália, Suíça e Inglaterra. O primeiro foi justamente a Itália, em que atuou como assistente voluntária da Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial.

Em 1952, trabalhando no jornal “Comício”, assinava a coluna “Entre Mulheres” com o pseudônimo Tereza Quadros.

Separada do marido em 1959, voltou a viver no Rio de Janeiro. No “Correio da Manhã”, nesse mesmo ano, passa a escrever a coluna “Correio Feminino – Feira de Utilidades” como Helen Palmer. Trabalhou ainda como colunista no “Jornal do Brasil” e também fazia traduções para complementar a renda.

Clarice teve dois filhos – Pedro e Paulo, nascidos em 1948 na Suíça e em 1953 nos Estados Unidos, respectivamente. O primogênito foi diagnosticado com esquizofrenia.

Em 1966, Clarice provocou um incêndio em seu quarto quando adormeceu com um cigarro aceso e quase perdeu a mão direita – passou meses internada. Os anos que se seguiram foram de depressão para Clarice, que ficou com muitas cicatrizes do incidente. Em 1974, devido a uma mordida de cachorro no rosto, ela precisou de uma cirurgia plástica – feita por Ivo Pitanguy.

Por “Laços de Família”, uma de suas obras mais aclamadas, recebeu o Prêmio Jabuti.


Correio_FemininoO livro Correio Feminino foi relançado em 2014 pela Editora Rocco, sob a organização da professora Aparecida Maria Nunes.

Lidos hoje, estes textos delineiam o contorno da mulher e da sociedade brasileira nos chamados anos dourados. Mais do que a escritora consagrada, é a “jornalista feminina” que se apresenta ao leitor, vasculhando o universo da mulher, em conselhos e reflexões.

Correio Feminino, que reproduz através de fac-símiles os textos publicados na imprensa em sua versão original, é, acima de tudo, uma deliciosa viagem no tempo. Em tom de uma conversa entre amigas, Clarice Lispector fala sobre os afazeres da casa, as dificuldades da mulher emancipada para conciliar a dupla jornada de trabalho, os cuidados com a beleza e os segredos da elegância.

Em muitos textos, é possível identificar a gênese do que viria a ser um conto da consagrada escritora. Mas esta Clarice Lispector jornalista feminina revela ao leitor as inquietações, hábitos e tendências da mulher brasileira nas décadas de 50 e 60, numa nova faceta – para deleite de seus fãs.


Leia um dos textos de Clarice como Helen Palmer, adaptado para a microssérie do Fantástico


capa_clarice_02Ser mãe é coisa que mudou bastante através dos tempos. Na França, por exemplo, houve um tempo em que as fidalgas consideravam a maternidade uma das mais desagradáveis incumbências. Sem o menor respeito ou amor pelas crianças, era moda abandonarem seus filhos em lugares distantes, de preferência no campo, na companhia de empregados e amas. Parece estranho falarmos de assunto tão sério como esse? Mas é que antes de ser mulher vaidosa, profissional ou dona de casa você é mãe, não é? Ou quem sabe vai ser um dia.

Ser mãe é muito mais do que dar à luz uma criança. Uma verdadeira mulher, uma verdadeira mãe, sabe que seus deveres vão muito além de enfeitar, agasalhar e alimentar seu filho. Você tem a difícil tarefa de civilizá-lo.

Não seja responsável pelas futuras falhas de seu filho, deixando-o crescer longe de seus olhos e de seus carinhos.

Esclarecida é a mulher que é de fato mãe e educadora e não uma boneca mimada a criar outros bonequinhos mimados.

Cada filho é um universo, e cabe aos pais descobrir, conquistar e fazer frutificar esse novo ser.

Sim, sim. Toda mãe e todo pai devem conhecer muito bem a criança que trouxeram ao mundo – e isso só se consegue chegando-se a ela, ouvindo suas primeiras queixas, seus primeiros desejos.

Um filho bem compreendido no lar tem as melhores armas para vencer na vida, quando tiver que enfrentá-la.

Não desanime jamais. As mães podem ser excelentes amigas se tiverem com os filhos a tolerância e a paciência que têm para o trabalho doméstico.

Lembre-se: toda criança precisa brincar.

Em vez de “se encher de paciência”, você vai se encher de amor quando se lembrar de que, para o seu filho, você é símbolo de conforto e proteção.

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Foto usada no livro “Eu sou uma Pergunta – Uma Biografia de Clarice Lispector”, de Teresa Monteiro

Mas é claro que pais e filhos se cansam mutuamente. Vigiar e ser vigiado fatiga um pouco os nervos.

O importante é não esquecer que você está moldando um ser humano, dando-lhe bons ou maus exemplos. Como pode uma mãe tentar corrigir um filho que grita se ela também grita por qualquer motivo?

Desde pequenos, os filhos devem ir aprendendo a se portar bem em sociedade. Sim, minha amiga… Quando se tornarem adultos será tarde demais.

Sua criança é um ser em formação – está sempre mudando.

Sim, filhos crescem rápido. Mas não creia que quando chegarem à puberdade a sua tarefa terminou. Nesse período de turbulência e hipersensibilidade, de vaidade e egoísmo, é que eles mais precisam de compreensão.

Os jovens não sabem muito bem o que são, nem o que querem ser. E ainda por cima desconfiam da vontade de mandar dos adultos. O melhor jeito não é insistir, e sim dar a eles uma discreta mistura de apoio e liberdade.

Com inteligência e o instinto materno que todas nós temos, você lhe mostrará o que está certo ou errado, mas de maneira sutil.

Ela vai errar, provavelmente vai – afinal, nós também erramos. Mas errar é o começo de acertar também.

Você já deve ter notado que os pais que cedem a todos os caprichos infantis passam a ser considerados pela criança um joguete.

Cabe a vocês preparar jovens capazes, conscientes e úteis.

Antes de tudo, seja amiga de seu filho. Não amiga para dar guloseimas, coisas bonitas, beijos apressados e mesadas generosas.

Generosidade, aliás, é outra coisa. Você já pensou que um pouco de perfume sempre fica nas mãos de quem oferece rosas?

Clarice_04Eu nunca prestei um favor sem sentir que nas minhas mãos ficou a lembrança do gesto de dar. Nunca dei amor de verdade sem sentir que também recebi amor. É essa a melhor forma de se sentir recompensada por todos os trabalhos. A melhor maneira de ser mulher, a melhor maneira de ser feliz.

Minha amiga, você com certeza já sabe e sente: a ternura é uma fonte inesgotável de bem! Sem ela, o mundo sofre com impertinência, excesso de autoridade, com maneiras rudes de pais e filhos… Às vezes parece mesmo que estamos sob o império da grosseria! Mas a ternura… Ah, ela é justamente o contrário disso! Ela é o extraordinário que podemos encontrar nas coisas mais comuns, é a hóspede agradável de um lar, é ela que alimenta um amor que nunca cansa nem acaba. Guarde esse pensamento, seja você mãe ou não: o que não se consegue com ternura não se consegue por nenhum outro caminho. A ternura é a grande conquistadora, aquela que tudo consegue e tudo vence!

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